Em plena ofensiva protecionista de Trump, Banco Mundial sugere que Brasil abra o mercado

09/03/2018

Estudo da entidade afirma que, se o país reduzisse barreiras ao comércio, aumentaria produtividade e seria possível tirar quase seis milhões de pessoas da pobreza. O Brasil começa 2018 com uma economia que se recupera pouco a pouco da mais profunda recessão das últimas décadas. Para muitos brasileiros, a retomada, no entanto, ainda não se materializou em mais e melhores empregos ou em rendimentos mais elevados. De acordo com o Banco Mundial, para que isso aconteça, o país precisa ainda melhorar drasticamente o seu desempenho em termos de produtividade. Segundo o banco, o Brasil poderia crescer cerca de 4,5% ao ano se aumentasse a taxa de produtividade para o nível registrado nos anos de 1960 e 1970. Um estudo da instituição financeira alerta que no coração da baixa produtividade brasileira está um sistema que reduz a concorrência e a inovação e induz a má-alocação de recursos entre empresas.

Se o país quiser mudar esse quadro, terá que considerar uma série de prioridades. A primeira delas, segundo o banco, é uma maior abertura de mercado e reforma das regulamentações empresariais visando aumentar a concorrência. Apesar de suas proporções, o Brasil continua sendo uma das economias mais fechadas do mundo. Também seria necessária promover uma reforma tributária abrangente. A instituição ressalta ainda que é preciso acabar com os subsídios ineficazes às empresas e destinar esses recursos para inovação e apoio aos trabalhadores. Só em 2015, as políticas desses subsídios corresponderam a 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB), o valor gasto foi 9 vezes maior do que o usado no Bolsa Família.O relatório Emprego e Crescimento: A Agenda da Produtividade, publicado nesta quarta-feira, sugere ainda que a negociação de novos acordos comerciais preferenciais poderiam ajudar no esforço de reformas. Segundo o banco, se o Brasil reduzisse suas barreiras ao comércio - dentro de reformas coordenadas dentro do Mercosul - poderia ser possível tirar quase seis milhões de pessoas da pobreza e criar mais de 400.000 empregos.

Uma das propostas citadas pela entidade é a de que cada membro do Mercosul reduza sua tarifa em 50% para países fora do bloco. Já as medidas não-tarifárias também precisariam ser simplificadas entre os membros do Mercosul e os impostos de exportação seriam eliminados em ambas partes. O estudo calcula que, com as reformas, o Brasil teria um crescimento de 7% e 6,6% nas exportações e importações, respectivamente, e um aumento permanente do PIB em cerca de 1%. As reduções de tarifas e de barreiras não tarifárias sobre importações aumentariam também, segundo o relatório, os rendimentos reais das famílias, inclusive entre os 40% mais pobres da população, por meio de preços mais baixos para o consumidor e mais empregos com salários mais elevados. Reduzir o custo do comércio poderia melhorar ainda, segundo o banco, a concorrência entre produtores nacionais, abrir o acesso a mercados externos maiores, permitindo ganhos de escala, além de facilitar o acesso a novas tecnologias.

Os fluxos comerciais do Brasil representaram menos de um terço do PIB em 2015, fazendo do país o menos aberto entre as grandes economias mundiais. A abertura comercial limitada reflete uma posição de política altamente intervencionista e protetora, segundo o banco, trazendo prejuízos diretos para a produtividade no Brasil, limitando a exposição à concorrência internacional e desacelerando a aquisição de novos conhecimentos e tecnologias modernas. O relatório destaca também que para os benefícios da integração às redes globais de comércio serem ampliados é preciso que eles sejam acompanhados pela integração dos mercados nacionais de produtos. "A falta de integração no mercado interno limita o grau de concorrência entre fornecedores domésticos e exportadores e reduz os vínculos da abertura com o comércio internacional e investimentos", diz o texto do relatório."A abertura comercial, por exemplo, que o [Fernando] Collor fez teve um impacto muito grande na pobreza, pois o impacto foi maior nos maior pobres com a redução do preço dos produtos que eles consumiam. O Brasil não completou essa abertura comercial", disse a jornalistas o diretor do Banco Mundial para o Brasil, Martin Raiser.

Guinada protecionista dos EUA

As sugestões de abertura do mercado chegam em um momento que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, começa a colocar em prática uma política protecionista em seu país, com impactos globais. Na semana passada, ele anunciou que irá impor uma nova tarifa global de 25% para a importação de aço e de 10% para o alumínio comprado de vários países.

A notícia desagradou os produtores de aço que já começam planejar represálias diante da guerra comercial declarada. A Europa, segundo maior exportador do material aos Estados Unidos, alertou que adotará medidas nos próximos dias contra uma lista de produtos norte-americanos se as ameaças feitas por Trump se concretizarem. A China, o maior produtor mundial, avisou que essa estratégia prejudicará o comércio internacional. O Governo brasileiro recebeu a notícia com "enorme preocupação". Caso confirmada, "a restrição comercial afetará exportações brasileiras de ambos setores", informou o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), em comunicado

Segundo Raiser , ainda que os Estados Unidos deixe seu posto de motor da abertura econômica e da globalização, novas alianças irão surgir e o Brasil deve aproveitar essa oportunidade. "O quadro global está mudando, não necessariamente será focado nos EUA", disse.Para Gabriel Kohlmann, gerente de projetos da Consultoria Prospectiva, há um relativo consenso que o resultado dos incentivos as empresas e a proteção à indústria nacional ficou aquém do esperado nos últimos anos. "Independentemente das sugestões de entidades internacionais ou da nova política protecionista de Trump, o Brasil vem sentido a necessidade da abertura do mercado. Esse discurso foi capitaneado pelo Henrique Meirelles e já há um embate de quem é contra e a favor dessa política", explica.

Ainda que as medidas de Trump, caso concretizadas, possam estourar uma guerra comercial global, o professor de relações internacionais Oliver Stunkel, da FGV, acredita que o impacto é menor hoje do que seria no passado. "A atuação dos EUA vai contra uma corrente que tem predominado desde o ano 90, de globalização e maior competição. Mas o protecionismo atual americano deve impactar menos do que se essa medida tivesse sido tomada há 10 anos. Hoje quem é o principal parceiro comercial do Brasil? A China. E ela vai defender essa ordem", pondera Oliver Stunkel, professor da FGV.

 

FONTE: El País. 

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